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Quarta-feira, 28 de dezembro de 2005

 

..OPINIÃO

Transposição do Rio São Francisco não se discute

 

Eduardo Frigoletto

 

 

Nos últimos meses tenho assistido aos intensos debates e ações a favor e contra a transposição do rio São Francisco. De um lado, os fervorosos defensores do desvio do rio – entre eles o incansável ministro cearense Ciro Gomes – alegam que essa é uma ação antes de tudo humanitária e que de forma quase milagrosa irá acabar com o problema da falta de água que aflige os “irmãos” do Nordeste setentrional.

De outro lado, contra a obra, o incansável governador de Sergipe, religiosos, outros políticos, ambientalistas, pescadores, indígenas e demais moradores que dependem daquele rio para tirar seu sustento. Há ainda aqueles que ora sustentam uma posição, ora assumem outra, como é o caso do governador de Alagoas, que antes era a favor e agora se posiciona aparentemente contra.

Entre os defensores da transposição, estão alguns engenheiros civis e até meteorologistas que alegam que do ponto de vista técnico a obra é possível. Esse argumento é verdadeiro, uma vez que a engenharia atualmente é capaz de praticamente tudo. O problema não é esse. Caso fosse tão simples, cito o exemplo da possibilidade de demolir o casario colonial da cidade de Penedo e em seu lugar construirmos um shopping gigantesco. A engenharia diria que é possível, mas o bom senso aponta para uma aberração que seria cometida contra a memória e a cultura alagoana e brasileira. Mesmo assim, a engenharia diria que é possível ...

Em congressos de que participei, os ânimos chegaram a ficar acirrados a ponto de quase ocorrerem agressões físicas entre os participantes a favor e os contrários. Acredito até que o ditado popular “sexo, religião, futebol não se discutem” está prestes a mudar para: “sexo, religião, futebol e transposição do rio São Francisco não se discutem”, tamanha é a controvérsia a respeito do tema. Chego a ter a convicção de que se, ao invés de Estados, fossem países os envolvidos na questão, já teria havido guerra entre os mesmos.

Decidi então, baseado em diversas visitas à região da foz daquele rio, entrevistas com moradores, fotos tiradas em anos anteriores, emitir minha opinião sobre o assunto, não para “jogar lenha” na questão, mas apenas para enfatizar pontos que não vêm sendo citados nas diversas matérias que tenho lido nos jornais e assistido nos telejornais.

Quanto ao aspecto ambiental local, nos últimos 4 ou 5 anos se formou uma lagoa junto à foz daquele rio, provando que está havendo, sim, um enfraquecimento em sua vazão. Também é fato que espécies de peixes marinhos estão adentrando cada vez mais no rio. A presença de manguezal vários quilômetros rio acima comprova essa perda de vazão do rio e avanço do mar.

O assoreamento em vários pontos também é fácil de ser constatado. Basta uma pequena viagem ao local para se verificar. Sem falar no volume de pesca que vem diminuindo a cada ano que passa. A erosão das margens do rio demonstra que sua profundidade foi reduzida.
Sem falar nas mais de 500 cidades ribeirinhas que jogam seus esgotos “in natura” no rio, desde Minas Gerais, passando pela Bahia, até chegar entre Alagoas e Sergipe, sem que haja um programa oficial para resolução do problema.

No aspecto ambiental mais regional, a água transposta teria de ser bombeada até mais de 300 metros acima do nível do São Francisco, com imensos gastos de energia elétrica para tal fim, além de perdas com evaporação e infiltração durante o transporte de mais de 2.000km nos túneis e aquedutos.

Não podemos esquecer que mesmo antes do início das obras, já foi detectado um superfaturamento na obra de R$ 400 milhões: “Em terra de mensalão, é melhor ficar de olho, meu irmão!”. Alguns bilhões de reais gastos numa obra duvidosa são no mínimo para se desconfiar.
Já no aspecto político, Alagoas e Sergipe são os mais prejudicados por terem pequeno peso eleitoral frente aos grandes interessados: Ceará e Pernambuco. Transposição sem revitalização, nem pensar!

 

 

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