Terça-feira, 28 de maio de 2002 08h25
Norte-americanos vêm ao Brasil plantar soja
MAURO ZAFALON
da Folha de S.Paulo

Os produtores de soja norte-americanos descobriram o Brasil. Trinta grupos chegaram ao país nos últimos anos e outros 20 analisam o mercado atualmente e mostram intenção de investir em solo brasileiro.

Esses investidores aproveitam os preços baixos da terra nas regiões de fronteiras agrícolas do país, como o Centro-Oeste e o Nordeste, e compram grandes extensões.
A participação de estrangeiros na produção de soja no Brasil poderá chegar a 500 mil hectares nos próximos anos. O tamanho médio das áreas adquiridas por esses investidores é de 10 mil hectares. O Brasil planta atualmente 15,6 milhões de hectares com soja.

A atração dos norte-americanos pelo mercado brasileiro é provocada por vários fatores. Um deles é a grande diferença de custo de produção entre os Estados Unidos e as novas regiões agrícolas brasileiras, segundo Anderson Galvão, consultor da MPrado Consultoria Empresarial, de Uberlândia (MG).

Galvão assessora um grupo de seis norte-americanos e quatro brasileiros que possuem 22 mil hectares em Jaborandi, na Bahia, a 300 km de Brasília.

A produção em escala é outro fator importante na decisão desses investidores, segundo Paulo Marthaus, da Insolo, de Ponta Grossa (PR), empresa especializada em assessoramento em investimentos agrícolas.

Marthaus diz que melhorias nos meios de escoamento do produto brasileiro, antes totalmente dependente da malha rodoviária, também é um item favorável nessa decisão.

Para Fernando Muraro, analista da Agência Rural, de Curitiba, uma das causas da vinda desses grupos é o atual estado de declínio da produção norte-americana de soja.

A terra é cara, a produtividade não cresce, os investimentos ficam cada vez mais onerosos e o risco financeiro aumenta ano a ano. Os subsídios, apesar de elevados, vão para as mãos de poucos produtores devido à concentração de terras.

Para o governo brasileiro, que acompanha esse movimento de vinda de investidores estrangeiros ao país, os norte-americanos vêm em busca de lucro.

Pedro de Camargo Neto, secretário de Produção e Comercialização do Ministério da Agricultura, diz que as boas condições de produção no Brasil são amplamente divulgadas em revistas e jornais especializados norte-americanos. Essa publicidade acaba despertando a atenção dos produtores. Nas contas do governo, esses grupos somam de 20 a 30.

Uma comparação dos gastos e da produção de soja nos Estados Unidos e no Brasil mostra que as diferenças são gritantes. Colocados na balança, pesam a favor dos brasileiros, que, na última década, registram aumentos constantes de produtividade a custos cada vez menores.

Um hectare de terra em Iowa, o filé mignon da produção norte-americana de soja, custa US$ 6.500 (R$ 16,25 mil).

Nas regiões de fronteiras agrícolas brasileiras, o custo do hectare é de US$ 163 (R$ 407) para a terra bruta, diz Galvão. Com US$ 280 (R$ 700), a terra fica em condições de produzir, diz o consultor.

O produtor norte-americano que quiser aumentar a área plantada em Iowa precisa de 770 sacas de soja para adquirir um novo hectare de terra.

No Brasil, com apenas 35 sacas se compra um hectare de terra em condições de produção nas novas fronteiras agrícolas.

O custo de produção dos norte-americanos também fica distante dos registrados no Brasil. Eles gastam US$ 11,30 (R$ 28) para produzir uma saca de soja, bem acima dos US$ 8,60 (R$ 21) dos produtores nacionais de Mato Grosso, segundo dados do Usda (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos).

Há dez anos, a produção média de soja no Brasil era de 34 sacas por hectare. No mesmo período, a produção norte-americana era de 39 sacas. Em 2001, a produção de Mato Grosso chegou a 51 sacas por hectare, contra apenas 44 nos Estados Unidos.

Muraro diz que essa diferença deve aumentar porque o mercado norte-americano está mais voltado para a produção de milho, ao contrário do brasileiro, que dá prioridade à soja.

Galvão diz que os investimentos estrangeiros no Brasil são feitos por grandes investidores e, em geral, sempre em parceria com brasileiros. O desconhecimento do país e a barreira da língua dificultam investimentos isolados.

Marthaus diz que muitos desses investidores são fundos de investimentos voltados para a área agrícola, que dão o gerenciamento dos negócios a empresas brasileiras. A Insolo, empresa de Marthaus, presta assessoria a investimentos que somam 100 mil hectares entre investimentos nacionais e estrangeiros.

Os investidores necessitam de um bom capital inicial. A terra é barata, mas só vai ficar em condições ideais de produção após cinco anos.

Quanto maior o investimento inicial na preparação da terra, mais rápido será o retorno do dinheiro aplicado devido ao aumento de produção.

Galvão diz que quando os investimentos iniciais são pequenos, a produtividade é baixa e o custo de produção chega a R$ 8,18 (R$ 20) por saca, acima do valor recebido na venda do produto. Em uma terra melhor preparada, o custo da saca fica por US$ 6,63 (R$ 16,60) logo na primeira safra, diz Galvão.

Poucas empresas informam o valor dos investimentos. Em geral, ficam próximos dos da fazenda que Galvão está assessorando em Jaborandi. Em sete anos, o grupo deverá investir US$ 8 milhões (R$ 20 milhões).

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